SAFiel detalha reunião com diretoria do Corinthians e aponta próximos passos do projeto
- Por Mirella Ramos / Redação da Central do Timão
A reunião entre representantes da SAFiel e dirigentes do Corinthians, realizada na última quarta-feira (26), no Parque São Jorge, durou mais de três horas e teve como principal objetivo aprofundar o debate sobre o projeto de transformação do futebol alvinegro em Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Após o encontro, Eduardo Salusse e Carlos Teixeira falaram sobre o clima da conversa, as dúvidas levantadas pelo clube e o caminho que deverá ser seguido nas próximas semanas.
O encontro aconteceu depois de meses de tentativas de avanço do projeto dentro do Corinthians. Antes da reunião, a expectativa já era de que a conversa não tivesse como foco imediato a assinatura da Proposta Não Vinculante apresentada pela SAFiel, mas sim a discussão de pontos técnicos e jurídicos que ainda geravam resistência entre dirigentes e conselheiros.

Salusse avaliou a reunião de forma positiva e afirmou que o início do encontro também serviu para tratar de incômodos acumulados entre as partes. Segundo ele, apesar desses pontos, o ambiente foi cordial e terminou com uma tentativa de reconstrução do diálogo.
“Bom, foi uma reunião muito amistosa. Foi uma reunião que começou com, digamos assim, lavando roupa suja, apanhando alguns pontos, mas em um clima muito cordial e restabelecendo um ambiente de cooperação. Houve questionamentos técnicos, algumas questões foram postas por algumas pessoas presentes, e nós ajustamos que todas essas dúvidas serão colocadas em um documento, em um papel, apresentadas a nós até sexta-feira agora e, em uma semana, nós responderemos todos os questionamentos feitos, para que eles possam diminuir as dúvidas, reduzir a resistência e as conversas seguirem de maneira bastante amistosa.”
De acordo com Carlos Teixeira, os questionamentos feitos durante a reunião passaram principalmente por aspectos técnicos, societários e financeiros do projeto. A intenção agora é reunir todas essas dúvidas em um único documento, que deverá ser respondido formalmente pela SAFiel.
“Bom, são as dúvidas comuns. Quer dizer, falou-se muito sobre questões técnicas, questões societárias, questões de capitalização da SAF, dúvidas naturais em um projeto desse tamanho e, como o Salusse disse agora, os questionamentos foram em espírito de cooperação, de superação das dúvidas. Agora, a gente segue respondendo formalmente um documento consolidado para o clube, com todas essas questões por escrito.”
Ao explicar o que quis dizer ao utilizar a expressão “lavando roupa suja”, Salusse afirmou que parte da conversa envolveu desconfortos provocados por ataques pessoais e pela forma como alguns episódios relacionados à SAFiel passaram a ser tratados publicamente. O representante também mencionou a insatisfação do grupo com a dificuldade encontrada para avançar com o projeto dentro do Corinthians ao longo dos últimos meses.
“Eu acho que foi mais no sentido dos desconfortos que são provocados, às vezes, por exageros de pessoas que expõem dados pessoais, vida pessoal, agressividade, ofensas e, em alguma medida, se imputa parte disso ao movimento da SAFiel, que, na verdade, talvez seja uma esperança para que o Corinthians saia dessa situação. Então, a SAFiel se posiciona como uma espécie de catalisador de todo esse movimento, dessa indignação em relação a tudo o que tem acontecido, às notícias que têm acontecido no Corinthians e, de nossa parte, de igual forma, manifestamos o nosso inconformismo nesses últimos um ano, ou quase um ano, em que o projeto tem sido apresentado, propostas apresentadas e com dificuldades de sermos recebidos, ouvidos e de uma regular tramitação.”
Salusse, porém, fez questão de afastar a ideia de que a reunião tenha significado algum tipo de aprovação prévia do projeto. Segundo ele, ainda existem dúvidas e resistências dentro do clube, e o processo deverá passar por outras etapas antes de qualquer definição.
“Mas esperamos que tenha sido tudo página virada. Nós queremos pedir ao corintiano que tenha paciência. As coisas não são simples a ponto de serem resolvidas em uma reunião de três, quatro horas. É uma sequência de novas reuniões, de etapas, projetos a serem desenvolvidos, etapas a serem desenvolvidas para que a gente possa caminhar em prol de um desfecho positivo. Não significa que houve nenhum sinal de aceitação, muito pelo contrário. Há uma série de dúvidas, resistências e, pela quantidade de pessoas que lá estavam, ficou muito claro que muitas são, a rigor ou a priori, favoráveis, outras são, a rigor ou a priori, contrárias. Mas eu acho que ficou muito claro que há um interesse legítimo em diminuir distâncias, e a redução das distâncias começa pelo esclarecimento das dúvidas jurídicas, financeiras, de controle, aspectos societários e daí por diante.”
Outro ponto destacado pelo representante da SAFiel foi a própria realização da reunião. Salusse afirmou que o grupo buscava, havia quase um ano, um encontro mais longo e aprofundado com integrantes da cúpula alvinegra.
“Bom, estavam praticamente todos os diretores do clube, e nós fomos recebidos, de nossa parte, com muita honra, com muita alegria e eu diria até, em alguma parte, com emoção, porque o que aconteceu hoje aqui é o que nós buscávamos há quase um ano: uma reunião com atenção, com tempo, sem pressa, uma reunião tratando um assunto tão importante quanto esse de maneira responsável e de maneira séria.”
Momento político do Corinthians
A proximidade das eleições no clube também entrou na pauta após o encontro. Questionado se a reunião poderia ter sido utilizada politicamente pelo presidente Osmar Stabile, Salusse disse não ter percebido esse tipo de movimento.
“Não tivemos essa percepção, não. Carlos, não sei o que você acha, mas, de minha parte, não houve nenhuma conotação política. É óbvio que estarmos há poucas semanas da eleição acaba sendo algum entrave, mas, enfim, a vida segue. A eleição vai ser realizada, quem vai ser eleito nós não temos a mínima previsibilidade, e o projeto será melhorado, as distâncias serão reduzidas e vamos seguir dessa maneira com o presidente que eventualmente for eleito, seja ele quem for.”
Discussão sobre a proposta não vinculante
Um dos principais pontos debatidos na reunião foi justamente a interpretação da Proposta Não Vinculante. Internamente, há dirigentes do Corinthians que entendem que determinadas partes do documento podem criar compromissos para o clube mesmo antes de uma eventual aprovação da SAF.
Salusse explicou que, na visão dos responsáveis pelo projeto, o caráter não vinculante está ligado à decisão final de aceitar ou não a transformação do futebol em SAF. Ele reconheceu, porém, que existem etapas intermediárias que exigem obrigações de cooperação.
“Veja, se existe um espírito de cooperação, nem documento precisa, porque a ideia de cooperar é uma ideia em que todos ganham. Na cooperação, todos ganham: o torcedor, o clube, a SAFiel, os dirigentes, os conselheiros. Todos saem ganhando. A cooperação é o melhor caminho sempre. O documento que está posto, houve uma confusão muito grande quando disseram sobre a não vinculabilidade do documento. Para deixar muito claro, quando você define que um documento desse é uma proposta não vinculante, significa dizer que, em relação ao seu objetivo final, que é a aprovação ou não de uma SAF, não há uma vinculação, não há uma obrigação a priori neste momento.”
Na sequência, Salusse detalhou como enxerga as obrigações previstas durante a análise do projeto.
“É óbvio que, para você poder chegar ao momento de decisão, você tem que seguir etapas. Essas etapas, elas são vinculantes naturalmente. Eu preciso que o clube colabore, que ele disponibilize dados, que disponibilize valor de ativos, que apresente as suas dúvidas e que haja uma construção nesse sentido. Então, para deixar muito claro, o que é não vinculante é a aceitação ou não da SAF. O documento impõe obrigações que não necessariamente obrigam a assinatura do documento ou a aprovação da SAF ao final, mas impõe, sim, obrigações que são naturais. Aliás, o que foi feito recentemente no Santos e em outros clubes que caminharam por isso é um procedimento normal em uma operação dessa natureza.”
Mesmo com a divergência de interpretação, a SAFiel não descartou a possibilidade de o documento ser assinado futuramente. Segundo Salusse, o objetivo imediato é restabelecer um ambiente de diálogo e responder primeiro aos questionamentos técnicos apresentados pelo Corinthians.
“Não, não. Veja, vamos por partes. Eu acho que o passo que foi dado hoje foi no sentido de, primeiro, restabelecer uma harmonia comunicacional. Essa é a verdade. O contato será feito de uma maneira tranquila, serena, séria, responsável. Vamos virar a página em relação a eventuais desabores e inconvenientes que tenham havido de parte a parte na questão do relacionamento e vamos esclarecer as dúvidas técnicas que foram apresentadas. Não foram poucas, foram muitas. E aí, a partir desse momento, a gente vai discutir qual será a próxima etapa.”
SAFiel estabelece prazo para respostas
Como encaminhamento do encontro, os questionamentos levantados pelos representantes do Corinthians deverão ser reunidos e encaminhados formalmente à SAFiel até esta sexta-feira (28). Depois disso, o grupo pretende utilizar aproximadamente uma semana para responder aos pontos apresentados.
“Nós pedimos uma semana. É mais do que suficiente. Poderíamos até ter respondido verbalmente à maior parte delas, mas, como o ideal é que o documento com as respostas seja circularizado entre os demais interessados, inclusive o próprio CAS, que estava aqui hoje representado pelo Rebollo, pelo Bambu e pela Marília também, além de mim, do Carlos e do Guto, que está ali, a verdade é que a gente vai precisar de uma semana para poder fazer algo escrito, bem feitinho, de maneira bem didática, para tirar a dúvida de todos, inclusive dos torcedores.”
O presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, também apresentou questionamentos diretamente aos representantes do projeto. Carlos Teixeira afirmou que o dirigente entregou um documento contendo dúvidas próprias e de sócios do clube, além de participar das discussões durante o encontro.
“O presidente do Conselho nos entregou um documento redigido dentro do Conselho, com dúvidas dele, com dúvidas dos sócios, fez perguntas e interações bastante importantes. Então, a interação do presidente do Conselho com a gente foi muito boa, assim como com o presidente Osmar também.”
A reunião terminou sem assinatura de documentos ou definição sobre uma eventual implementação da SAF. O avanço, neste primeiro momento, ficou concentrado na retomada do diálogo e na formalização das dúvidas existentes dentro do Corinthians. A partir das respostas que serão elaboradas pela SAFiel, clube e representantes do projeto deverão discutir qual será a etapa seguinte.