Reforma do Estatuto: terceira audiência tem debates sobre rito da SAF e apresentação da SAFIEL
- Por Daniel Keppler e Larissa Beppler | Redação da Central do Timão
Na noite da última segunda-feira (8), o Conselho Deliberativo (CD) do Corinthians realizou sua terceira audiência pública sobre a Reforma do Estatuto, com foco na discussão sobre a eventual constituição de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF). A sessão plenária contou com a apresentação do projeto SAFiel, seguida de debates e apartes de conselheiros, coletivos e associados.
O conselheiro Felipe Ezabella abriu os debates, solicitando prioridade devido a uma reunião concomitante do Conselho de Orientação (Cori), que aprovou a previsão orçamentária do clube para 2026. Ezabella propôs uma reformulação técnica no parágrafo terceiro do anteprojeto de reforma estatutária para refletir a lei das SAFs, que garante 10% das ações ao clube associativo, com poder de veto em questões de identidade.

Em seguida, os idealizadores da SAFiel Eduardo Salusse e Carlos Teixeira expuseram o projeto. Salusse afirmou que o trabalho é isento de interesse econômico pessoal e que o clube pode executá-lo de forma independente, se quiser. A proposta prevê a constituição de uma SAF inicialmente 100% controlada pelo clube, com a posterior entrada da Invasão Fiel via reserva e integralização de ações.
Os pontos centrais apresentados foram: pagamento do passivo, recursos para o clube social (com royalties), uma estrutura de governança com mecanismos anti-captura política, e um período de cinco anos de lock-up para reinvestimento de lucros. Salusse citou um estudo que projeta valorização de até 12 vezes das ações, reconheceu “ruídos de comunicação” com o clube sugeriu a formação de um grupo de trabalho para diálogo.
Debates e questionamentos técnicos
O plenário seguiu com uma série de apartes. Edson Oliveira questionou a viabilidade de captação de recursos se o clube mantiver o controle da SAF. Salusse respondeu que o mercado não investiria sob esse cenário, alegando que a alternância de poder no modelo associativo gera risco. Ele mencionou a possibilidade de negociar modelos de co-gestão.
Representando o Coletivo Democracia Corinthiana, Victor Pelizaro perguntou sobre o voto proporcional (por ação), contrastando com a proposta de voto por CPF do CDC. Teixeira explicou que o voto proporcional é legal e que há gatilhos para equilibrar o poder entre os “potes” de ações. Sobre o pote popular ser limitado, afirmou que isso protege o potencial de captação total.
Fábio Prudente, do Coletivo Voz Corinthiana, questionou uma antiga emenda sobre desconto da dívida no valuation. Teixeira e Salusse esclareceram que a proposta atual mudou e não inclui mais o desconto, focando em um rito estatutário com prazos e etapas, incluindo a possibilidade de 1/3 dos associados levar uma proposta rejeitada pelo CD à Assembleia Geral.
O conselheiro Ilmar Schiavenatto indagou sobre a valorização patrimonial. Teixeira citou que seria calculada por avaliações de mercado, considerando o pagamento da dívida e o crescimento de faturamento, podendo chegar a R$ 5 bilhões após cinco anos. José Luiz considerou baixo o valuation de R$ 1,6 bilhão e sugeriu que o estatuto exija duas avaliações, com valor mínimo.
Posicionamentos diversos no plenário
O conselheiro Paulo Roberto Bastos Pedro criticou a sugestão de cláusula que contornaria uma reprovação do CD e o voto proporcional. Sugeriu que um acordo de acionistas pode regular o controle sem estar atrelado à proporção de ações.
A conselheira vitalícia Miriam Athiê defendeu que o presidente do Corinthians tenha assento no conselho da SAF com voto e veto. Foi contra a cláusula de contorno do CD e defendeu que o estatuto apenas autorize a possibilidade de uma SAF, sem definir o modelo.
O associado Cyrillo Cavalheiro Neto defendeu que a aprovação de uma SAF seja atribuição exclusiva dos sócios, não do CD, e apoiou a cisão contábil entre futebol e clube social. Criticou a baixa presença na sessão e a “cultura do clube”, afirmando que não adianta mudar o estatuto se a cultura não mudar, que essa cultura fez o Corinthians chegar na situação em que está hoje.
Rozallah Santoro, por sua vez, argumentou que a reforma tributária pode onerar o clube social e que a realidade financeira é imperativa. Propôs uma “Selfiel” (SAF 100% do clube com governança) como ponto de partida para depois atrair investidores externos.
O Coletivo Voz Corinthiana enfatizou que o anteprojeto não cria uma SAF, mas estabelece um rito seguro para futuras análises. Defendeu quóruns qualificados de 2/3 e a necessidade de due diligence rigorosa, citando o caso do Vasco. Conclamou o CD à união em torno do debate institucional. O conselheiro Peterson Ruan lamentou a baixa adesão e defendeu maior voz ao torcedor, sugerindo cadeiras no CD eleitas pelo Fiel Torcedor.
Representantes do Coletivo Democracia Corinthiana apresentaram uma proposta alternativa com voto por CPF. Alguns associados foram críticos à SAFiel, defendendo a manutenção do quórum de 2/3, argumentando que a governança pode existir sem SAF através da LGE, e alertando para riscos de concentração de poder e priorização do lucro sobre o desempenho esportivo.
Um associado defendeu que o modelo associativo permite correção de erros pela alternância de poder, enquanto uma SAF seria um “caminho sem volta”, e sugeriu que o anteprojeto exija o controle da SAF pelo clube.
E agora?
Com o final das manifestações, Tuma encerrou a sessão no Parque São Jorge. Nos bastidores, a Central do Timão apurou que o sentimento geral era de que houve espaço para uma troca saudável de ideias na maioria do tempo, tanto por parte de membros dos poderes do Corinthians quanto por parte dos representantes da SAFIEL, que mantiveram diálogo constante durante todo o encontro.
No entanto, houve menos construções de consensos sore a reforma do estatuto, em si, do que nas reuniões anteriores, pois as falas dos oradores variaram muito sobre a redação dos artigos relativos ao rito de constituição de SAF que deve constar no texto do projeto. Com isso, caberá à comissão de reforma avaliar se fará mudanças à proposta presente no documento atualmente ou se acatará alguma sugestão dentre as feitas na audiência.
A próxima sessão plenária do Conselho Deliberativo para debater o projeto de Reforma do Estatuto está marcada para o dia 17 de dezembro, com o tema “Poderes Sociais, Assembleia Geral, Convocação, Quórum e Publicidade”. Interessados em participar das audiências públicas do CD deverão realizar inscrição prévia pelo e-mail estatuto@sccorinthians.com.br, até três horas antes do início da sessão.
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