Bastidores da saída de Memphis: Corinthians recuou em renovação e busca acordo para dívida milionária
- Por Mirella Ramos / Redação da Central do Timão
A decisão do Corinthians de não renovar o contrato de Memphis Depay encerrou as negociações pela permanência do holandês, mas abriu uma nova frente de preocupação para o clube. Além dos bastidores que levaram ao recuo da diretoria quando o novo vínculo já estava encaminhado, o Timão ainda precisa solucionar uma dívida com o atacante que pode chegar a R$ 77 milhões. As informações são do UOL e da Itatiaia.
Memphis não recebeu a notícia diretamente do presidente Osmar Stabile. A pedido do mandatário, o gerente financeiro André Lavieri entrou em contato de forma virtual com o estafe do jogador para comunicar que o clube havia desistido da renovação. Paralelamente, Stabile esteve no CT Dr. Joaquim Grava para informar a decisão ao departamento de futebol.

O presidente não participou diretamente das tratativas com o atacante e seus representantes. Mesmo na reta final, as conversas foram conduzidas principalmente pelos departamentos jurídico e financeiro, que chegaram a apresentar posições diferentes sobre a continuidade do camisa 10.
A decisão surpreendeu o estafe de Memphis. Pessoas ligadas ao holandês relataram ao UOL uma mistura de irritação e incredulidade, uma vez que representantes jurídicos, empresários e assessores entendiam que o acordo estava encaminhado depois dos alinhamentos realizados com os departamentos de futebol, financeiro, jurídico e de marketing do Corinthians.
Renovação estava encaminhada até 2028
Osmar Stabile decidiu interromper as negociações durante o último fim de semana, quando recebeu a versão final do contrato que estenderia o vínculo de Memphis até meados de 2028.
Antes do recuo presidencial, o documento havia passado pela análise dos diferentes setores envolvidos nas tratativas e recebido aprovação. Do lado de Memphis, a versão final já estava assinada, segundo o UOL.
O atacante reagiu negativamente quando soube que não permaneceria. Pessoas próximas ao jogador também relataram frustração porque a continuidade no Corinthians era um desejo do holandês, que havia retornado ao Brasil esperando chegar a um entendimento com o clube.
Memphis, inclusive, teria sido orientado por pessoas ligadas ao Corinthians a permanecer fora do país enquanto a situação contratual não estivesse definida. Mesmo assim, decidiu retornar ao Brasil, movimento que também tinha como objetivo acelerar uma resolução das negociações.
Valores de marketing e pressão política pesaram na decisão
Entre os pontos que provocaram incômodo em Osmar Stabile estavam os valores destinados às ações de marketing no novo contrato. Segundo o UOL, o montante previsto era de aproximadamente R$ 15 milhões. A quantia, porém, já fazia parte das negociações. O valor havia sido discutido desde o início das tratativas, no fim de julho, e também constava em uma proposta enviada pelo Corinthians ao atacante no começo de junho, antes da participação de Memphis na Copa do Mundo com a seleção da Holanda.
O modelo previa pagamentos semestrais relacionados a ações comerciais e publicitárias envolvendo o jogador. Ao término do contrato, Memphis teria a garantia de receber ao menos R$ 15 milhões por essas iniciativas. Caso a receita obtida superasse o montante estipulado, o excedente seria dividido entre as partes.
Outro ponto apresentado por Stabile a integrantes da diretoria foi a previsão de uma ajuda de custo mensal de R$ 250 mil. Na manhã da última terça-feira (11), o departamento de marketing informou ao presidente que duas empresas haviam sinalizado interesse em ajudar a bancar o valor durante o primeiro ano do contrato.
Internamente, havia a expectativa de que novas oportunidades comerciais surgissem depois da assinatura do vínculo e do início das campanhas envolvendo o holandês. Pessoas ligadas ao presidente confirmaram ao UOL a sinalização das empresas, mas ressaltaram que nenhuma proposta concreta havia chegado às mãos de Stabile.
O cenário político do Parque São Jorge também interferiu no desfecho. Grupos contrários à permanência de Memphis pressionaram o presidente, e alguns aliados chegaram a considerar a possibilidade de retirar apoio à atual gestão caso o novo contrato fosse concretizado.
Mesmo depois de definir que não renovaria, Stabile ouviu pessoas que tentaram convencê-lo a reconsiderar. A decisão, porém, foi mantida e posteriormente comunicada oficialmente pelo Corinthians.
Dívida vira novo problema entre Corinthians e Memphis
Encerradas as negociações pela permanência, clube e jogador ainda têm uma questão financeira para resolver. O Corinthians possui uma dívida de aproximadamente R$ 42 milhões com Memphis. Com a inclusão de juros, correção monetária e demais encargos, o montante pode alcançar R$ 77 milhões.
Segundo o UOL, ao comunicar que não renovaria o contrato, o clube também pediu ao estafe do atacante que não recorresse à Fifa para exigir o pagamento integral. Caso permanecesse no Corinthians, Memphis estava disposto a abrir mão dos acréscimos sobre a dívida e aceitar os cerca de R$ 42 milhões divididos em quatro parcelas. A condição, entretanto, fazia parte do cenário de renovação contratual.
Sem um novo vínculo, a possibilidade de cobrança integral voltou ao horizonte. Fontes ligadas ao clube apontaram ao UOL a expectativa de que Memphis tome medidas contra o Corinthians ainda nesta semana.
A Itatiaia informou que a tendência é de que o estafe recorra à Fifa caso não exista um entendimento. Nesse cenário, o processo poderia resultar em novas consequências esportivas para o Corinthians, incluindo a possibilidade de outro transfer ban.
Corinthians pretende buscar novo acordo
Antes que o caso avance internacionalmente, a diretoria corinthiana estuda apresentar uma alternativa para o pagamento. De acordo com a Itatiaia, representantes dos departamentos jurídico e financeiro devem se reunir para avaliar os próximos passos.
Uma das possibilidades analisadas é procurar Memphis e apresentar um plano para quitar o débito, buscando impedir que a cobrança seja executada na Fifa. Neste momento, porém, não há informação sobre um novo formato de parcelamento já aceito pelo jogador.
Depois do anúncio da não renovação, Memphis se manifestou nas redes sociais e indicou que pretende tomar providências diante da forma como o processo foi conduzido.
“Eu não queria essa situação e sempre respeitei o clube ao longo de todo o processo, mas agora sou forçado a reagir com firmeza para preservar meus interesses. Nos próximos dias, falarei publicamente, mas fiquem certos de que não deixarei esse comportamento inaceitável sem sanção”, escreveu.
Ex-diretor jurídico critica encerramento do ciclo
A forma como a passagem de Memphis chegou ao fim também recebeu críticas de Vinicius Cascone, diretor jurídico do Corinthians na época da elaboração do primeiro contrato do holandês. Em publicação após a definição da saída, o ex-dirigente exaltou a trajetória do atacante e criticou a maneira como o ciclo foi encerrado.
Cascone relembrou a chegada do jogador em 2024, quando o Corinthians atravessava um momento de instabilidade esportiva, e relacionou a passagem do holandês à recuperação da equipe e às conquistas obtidas posteriormente.
Confira a manifestação completa de Vinicius Cascone:
“Quando o Corinthians estava desacreditado, deixando de ser a primeira opção de muitos jogadores, você acreditou! De forma inusitada ‘nós lhe encontramos’, e mesmo diante do caos, você acreditou quando dissemos que sua vida não seria mais a mesma. Que você viveria coisas aqui inimagináveis, e que com certeza você causaria um impacto gigantesco.
Você acreditou, e as coisas aconteceram rapidamente. Da zona do rebaixamento a uma sequência de vitórias consecutivas, pronto: milhares de crianças com a faixa na cabeça, milhões voltando a sorrir pelas ruas, a empolgação foi contagiante.
De volta à Copa do Brasil, Libertadores e o título Paulista. Aliás, que título, o resgate do orgulho e da camisa Corinthiana. Voltamos ao protagonismo.
No meio disso, muitos ataques daqueles que se dizem Corinthianos, ‘vazaram seu contrato’, tentaram destruir a sua imagem, jogá-lo contra os Corinthianos de verdade, nossa Fiel Torcida. Mas você sempre esteve lá, e quando vinham as críticas, você dizia: seremos campeões! E fomos, Copa do Brasil, depois Supercopa. Aliás, ambos sensacionais.
Mesmo com o boicote e a tentativa de sabotagem de alguns, você permaneceu acreditando. Não existem palavras para agradecer o impacto que você causou em milhões de pessoas nesse Brasil afora, e só por isto, eu já poderia dizer que valeu a pena.
Em todos os aspectos, financeiro, desportivo, marketing e mídia, engajamento, enfim, o saldo foi muito positivo. Mas o mais importante foi trazer alegria para nosso povo, convertendo novos torcedores, resgatando a autoestima de milhões, retomando nosso protagonismo.
Infelizmente, o encerramento desse ciclo da forma como ocorreu ignorou tudo o que você fez por nós. Tenha certeza que apesar daqueles ‘pseudo corinthianos’, a gratidão de milhões será eterna!
Eu não tenho palavras para descrever o meu sentimento neste momento: tristeza, mas também muita gratidão, por não ter se ‘escondido’, por ter falado verdades, por ser quem você é, e principalmente pelo impacto que você causou em nosso maior patrimônio, nossa Fiel Torcida.
Em cada canto deste país, dos lugares mais humildes aos mais luxuosos, você fez ecoar um grito que estava preso há muito tempo: É campeão! Para sempre.”