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Ministério Público abre investigação sobre rabiscadinhas após Corinthians admitir falta de controle

13/08/2026 Por Henrique José Pereira de Almeida
Ministério Público abre investigação sobre rabiscadinhas após Corinthians admitir falta de controle
  • Por Henrique Pereira / Redação da Central do Timão

 

O Ministério Público de São Paulo instaurou um procedimento investigatório criminal (PIC) para analisar possíveis irregularidades na relação comercial mantida entre o Corinthians e a Incentiva Serviços Combinados Tecnologia e Marketing, empresa que esteve à frente do Fiel da Sorte. A informação foi divulgada inicialmente pelo ge.globo.

A apuração ocorre após o clube informar ao Ministério Público que realizou pagamentos superiores a R$ 6,9 milhões à Incentiva entre agosto de 2023 e abril de 2026, embora não tivesse mecanismos próprios para verificar quais serviços estavam sendo efetivamente executados pela empresa.

 

Página oficial do Coringão da Sorte, renomeado “Fiel da Sorte”. Foto: Reprodução

 

O próprio Corinthians reconheceu essa falta de acompanhamento ao declarar ao órgão: “A Incentiva nunca apresentou os relatórios e a prestação de contas que serviriam de base ao cálculo (das prestações mensais).”

O promotor Cássio Conserino, responsável pelo caso, pretende esclarecer por que os repasses continuaram sendo feitos mesmo sem que o clube tivesse acesso a documentos capazes de comprovar a execução dos serviços. Entre as possibilidades investigadas está a hipótese de “houve devolução de valores a dirigentes ou colaboradores do Corinthians e consequentemente desvio de dinheiro da entidade esportiva”.

A investigação aberta pelo Ministério Público também busca identificar a eventual ocorrência de crimes como estelionato, furto, apropriação indébita, crimes tributários, falsidade ideológica e associação criminosa, além de outras possíveis infrações que possam surgir durante a apuração.

Como surgiu o Fiel da Sorte

A parceria começou a ganhar publicidade em 28 de junho de 2023, quando o Corinthians anunciou o projeto em suas redes sociais com a mensagem: “O FIEL DA SORTE CHEGOUUUU!”

A proposta apresentada aos torcedores previa sorteios frequentes de prêmios e experiências para os integrantes do Fiel Torcedor. Entre os benefícios estava a chamada “rabiscadinha”, modalidade semelhante a uma raspadinha digital. Cada associado recebia 12 oportunidades gratuitas por mês.

Nos primeiros meses, o Corinthians promoveu o Fiel da Sorte em seus canais oficiais e também realizou ações na Neo Química Arena. A divulgação, entretanto, deixou de ocorrer a partir de abril de 2024. Desde então, não houve novas publicações sobre o programa nos canais oficiais, embora os pagamentos à empresa responsável tenham continuado.

Ao longo do período analisado, R$ 6,9 milhões foram repassados à Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing Para Empresas LTDA.

A companhia tinha o Corinthians como único cliente, possuía capital social de R$ 50 mil e passou por mudanças em sua composição societária. Atualmente, o proprietário reside em Alagoas, enquanto o endereço empresarial está registrado em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.

Os pagamentos mensais também cresceram de forma significativa. A primeira parcela registrada foi de R$ 124.488,75, em agosto de 2023. Em abril de 2026, o último pagamento mencionado na apuração chegou a R$ 343.522,50, quase três vezes o valor inicial.

Durante esse período, o Corinthians esteve sob três administrações: Duilio Monteiro Alves comandou o clube em 2023, Augusto Melo assumiu em 2024 e permaneceu até maio de 2025, enquanto Osmar Stabile ocupa atualmente a presidência. Documentos como planilhas e notas fiscais obtidos apontam para 34 pagamentos mensais realizados à Incentiva.

Em maio deste ano, o Corinthians solicitou o encerramento antecipado do contrato, alegando que a empresa havia deixado de cumprir obrigações previstas no acordo. O vínculo originalmente tinha validade até 2028, e o clube pretende cobrar R$ 3 milhões em razão da rescisão.

Internamente, o Corinthians também busca descobrir quais atividades deixaram de ser realizadas e em que momento isso teria acontecido. Outro ponto levantado na apuração é que a última autorização concedida pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), órgão ligado ao Governo Federal, para sorteios envolvendo a empresa expirou em setembro de 2024.

Mesmo assim, um documento encaminhado ao Corinthians indica que as chamadas rabiscadinhas continuaram disponíveis até 19 de dezembro de 2025.

A versão apresentada pela Incentiva é diferente. A empresa afirma que não recebeu comunicação oficial sobre uma rescisão unilateral e sustenta que “a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio deste ano” (2026).

Modelo de pagamento

Segundo informações obtidas pelo ge.globo com pessoas que tiveram conhecimento do acordo, a remuneração da Incentiva era calculada com base no número de novos associados do Corinthians. O contrato previa o pagamento de R$ 3,75 mensais por cada torcedor que aderisse ao Fiel Torcedor depois do início da parceria, em abril de 2023.

O valor não variava de acordo com a categoria escolhida pelo associado. O plano de menor preço, por exemplo, custava R$ 14,90.

A OneFan, empresa responsável pela operação tecnológica do Fiel Torcedor, tinha a tarefa de informar mensalmente quantos associados estavam em situação regular. A partir desses números, era calculado o valor que deveria ser transferido pelo Corinthians à Incentiva.

Com o crescimento da base de associados, os pagamentos à empresa também aumentaram, mesmo durante o período em que o Fiel da Sorte praticamente deixou de aparecer nas plataformas oficiais do clube.

Apesar de enfrentar atrasos com diversos fornecedores e jogadores, o Corinthians manteve os pagamentos à Incentiva em dia até abril de 2026. Foi naquele momento que a diretoria decidiu interromper os repasses.

A estrutura financeira da parceria também chama atenção pelo contraste entre os valores pagos pelo Corinthians e os custos dos prêmios oferecidos pela Incentiva. Em uma das campanhas, realizada entre junho e setembro de 2024, a empresa se comprometeu a disponibilizar 65 prêmios ou experiências. De acordo com o certificado emitido pelo Governo, o valor total dos itens chegava a apenas R$ 7.051,30.

O que diz Duilio, ex-presidente do Corinthians

Duilio Monteiro Alves, presidente que estava à frente do Corinthians quando o acordo foi firmado, afirmou por meio de nota:

O contrato com a empresa Incentiva tinha como objetivo o incremento de novas receitas através da venda de novos planos do Fiel Torcedor, contemplando também, através da criação do plano Fiel Digital, aquele torcedor que não pode ir ao estádio, mas que vive intensamente o Corinthians. Nesse contexto, por exemplo, além dos sorteios de prêmios e experiências, foram criados conteúdos exclusivos, que eram veiculados apenas no Universo SCCP, como os bastidores dos jogos, e a gamificação através das moedas, que incentivavam a interação do torcedor com o clube.

Toda campanha de incentivo que premiava os novos fiéis torcedores deveria ser obrigatoriamente aprovada previamente junto ao Ministério da Economia, com o Corinthians assinando junto à empresa cada nova campanha. A empresa nessas campanhas possuía o compromisso contratual de adquirir de forma onerosa os produtos oficiais e as experiências junto ao Corinthians, assumindo o risco de pagar por estes, mesmo que eventualmente não fosse arrecadado o montante necessário para cobrir seus custos, através da venda dos novos planos. Das novas receitas geradas com os novos planos vendidos o clube recebia o valor integral e repassava uma parte para a empresa.”

Augusto Melo, que sucedeu Duilio na presidência, declarou em uma mensagem de áudio que desconhecia o contrato e afirmou que nunca participou de tratativas relacionadas ao Fiel da Sorte. A gestão atual, comandada por Osmar Stabile, também apresentou sua versão sobre o assunto:

“O Sport Club Corinthians Paulista informa que a rescisão de contrato com a Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing para Empresas Ltda ao Corinthians ocorreu este ano após o descumprimento de contrato por parte da empresa parceira. O Corinthians ainda esclarece que os pagamentos cumpridos desde junho de 2025 foram realizados respeitando os trâmites legais e contábeis do Clube”.

Detalhes sobre a empresa

A Incentiva foi criada em agosto de 2021 por Rodrigo Gilotti. A primeira sede da companhia ficava no Jabaquara, em São Paulo. Cerca de seis meses depois, a empresa iniciou uma parceria com o Corinthians para colocar em funcionamento o Coringão da Sorte, projeto que também oferecia sorteios e rabiscadinhas por meio de uma plataforma própria.

A denominação Fiel da Sorte passou a ser utilizada em 2023, quando o projeto foi transferido para dentro do aplicativo Universo SCCP, pertencente ao Corinthians. Sobre a mudança, Gilotti justificou ao ge.globo: “Mudou porque foi muito boa a resposta e melhorou muito o engajamento, tanto que o super app se adequou por causa do engajamento das raspadinhas, que foi um sucesso”

O empresário afirmou que apresentou a proposta ao Corinthians e, a partir daí, iniciou a relação comercial entre as partes.

Em dezembro de 2023, a JK Comercio Internacional LTDA entrou na sociedade com participação de 70%. A companhia, localizada em Ibiraçu, no Espírito Santo, tinha registro de atuação no comércio atacadista de produtos alimentícios e capital social de R$ 10 mil. A empresa era representada por Juliana Karla Oliveira Frigino, que não foi encontrada pela reportagem.

Sobre a entrada dela na estrutura societária, Gilotti afirmou: “Juliana, que eu saiba, era sócia de outra empresa de um dos meus sócios”.

Poucos meses depois, em maio de 2024, houve uma nova alteração societária. Rodrigo Gilotti deixou o quadro da Incentiva e foi substituído por Anderson Gilotti e Claudio Caviola Foiani, ambos também parceiros de Rodrigo em outro empreendimento. Apesar de compartilharem o sobrenome, Rodrigo não esclareceu qual seria seu grau de parentesco com Anderson.

Em setembro de 2024, menos de quatro meses depois da alteração anterior, a Incentiva foi vendida para João Augusto de Queiroga Vanderley. Aos 64 anos, o empresário pernambucano não possuía experiência anterior no segmento de sorteios, mas afirmou que enxergou uma oportunidade comercial na empresa por causa do contrato que estava em andamento.

O irmão e advogado de João Augusto, João Otávio Vanderley, explicou a aquisição da seguinte maneira: “Meu irmão é administrador de empresas, tem pós-graduação. Isso é um negócio, é uma plataforma de tecnologia, entendeu? Você contrata tecnologia, é outra história. Você não precisa ser médico para ter hospital, não precisa ser engenheiro para ter construtora. Oportunidade de negócio, pronto. Aparece, tem que pegar”

No fim de 2024, em dezembro, a sede da Incentiva deixou o endereço anterior e passou a funcionar em um escritório comercial localizado na região de Alphaville, onde estão instaladas diversas outras empresas.

A empresa, por meio de seu advogado, contestou a forma como o Corinthians conduziu o encerramento do contrato. Segundo a defesa, houve uma notificação extrajudicial do clube com questionamentos sobre o acordo, à qual a Incentiva teria respondido com uma contra notificação.

A empresa afirma que não recebeu, até então, uma comunicação formal sobre a rescisão: “Houve uma notificação extrajudicial por parte do Corinthians, fazendo várias indagações sobre o contrato, isso por volta de maio, salvo engano. Caso não houvesse respostas, o contrato seria rescindido. Diante dessa notificação, a Incentiva fez uma contra notificação que até o presente momento não temos notícias. Em relação à rescisão do aludido contrato não teve nenhum comunicado oficial por parte do contratante e, em razão de sua indagação, recebemos com surpresa, pois a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio deste ano.”

Depois que João Augusto assumiu a empresa, a Incentiva não conseguiu obter novas autorizações do Governo Federal para promover sorteios relacionados ao Corinthians. Segundo o advogado, a obtenção de uma nova autorização dependia de documentos que precisavam ser assinados pelo Corinthians. A empresa afirma ter procurado o clube diversas vezes, sem conseguir concluir o processo.

“Ficou acordado que o Corinthians teria que assinar o pedido de autorização. Entendemos que Corinthians passa por tempos tempestuosos, houve muita confusão no clube e muitas medidas, como um simples pedido, foi procrastinado por pessoas que tinham que resolver, sendo que inúmeras vezes tentamos contato com o clube para assinatura do termo de adesão e a declaração de receita operacional, documentos exigidos pela SPA, para uma nova autorização, porém sem sucesso”, justificou.

Questionado sobre como a empresa poderia ter realizado entregas até maio de 2026 sem uma autorização vigente, o advogado respondeu: “Não sei se houve sorteio, deve ter tido promoção para fidelização de sócios.”

A ausência de divulgação do programa pelos canais oficiais do Corinthians também foi atribuída pela defesa à administração do clube: “Desde a primeira troca de administração e equipe técnica, o Fiel da Sorte deixou de ser divulgado pelas mídias oficiais do clube ou durante os jogos. Como o produto é um benefício oferecido pelo clube aos sócios, também era de sua responsabilidade a divulgação.”

Próximos passos

Além da investigação interna já conduzida, o Corinthians avalia recorrer à Justiça para solicitar uma perícia que determine o tamanho de um eventual prejuízo e quanto poderia ser cobrado da Incentiva.

O clube também solicitou à OneFan informações que ajudassem a confirmar se os prêmios anunciados ao longo da parceria realmente chegaram aos torcedores contemplados. A empresa responsável pela tecnologia do Fiel Torcedor e pelo aplicativo Universo SCCP, porém, informou não possuir esses dados, já que esse controle ficava sob responsabilidade da própria Incentiva.

Depois que o contrato foi rescindido, o Corinthians removeu as referências ao Fiel da Sorte de seus canais e também do aplicativo Universo SCCP.

Além disso, as duas notas fiscais mais recentes emitidas pela Incentiva não foram quitadas pelo clube.

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