Duilio renuncia ao quadro associativo do Corinthians e publica carta aberta à torcida
Por Redação da Central do Timão
O ex-presidente do Corinthians Duilio Monteiro Alves anunciou nesta quinta-feira (28) sua renúncia ao título de sócio remido, ao cargo de conselheiro vitalício e também à posição de membro do Conselho de Orientação (CORI) do clube.
A decisão foi comunicada por meio de uma carta aberta direcionada à torcida corinthiana, publicada dias após a expulsão do ex-presidente Andrés Sanchez do quadro associativo, aprovada pelo Conselho Deliberativo na última segunda-feira (25).

Assim como Andrés, Duilio é alvo de investigações relacionadas ao uso de cartão corporativo durante sua gestão à frente do clube, além de suspeitas envolvendo notas fiscais consideradas irregulares. Os casos estão sob análise da Justiça, do Ministério Público e também de órgãos internos do Corinthians.
Na carta, Duilio classificou sua saída como “último gesto como sócio do Corinthians” e afirmou que sua eventual expulsão vinha sendo tratada por parte da oposição como solução para os problemas do clube. Segundo ele, porém, o debate interno ultrapassou limites políticos e passou a adotar uma lógica de perseguição institucional.
“Muitos vão comemorar este que considero meu último gesto como sócio do Corinthians. Em breve, porém, as pessoas racionais perceberão que não há nada a festejar”, escreveu.
O ex-dirigente relembrou sua ligação histórica com o clube, citando a influência familiar e o legado político do pai, Adilson Monteiro Alves, um dos nomes ligados à Democracia Corinthiana. Duilio afirmou que dedicou anos à vida política do Corinthians e declarou que o desgaste pessoal provocado pelo ambiente interno do clube teve impactos em sua saúde física e mental, além de afetar sua família.
Em outro trecho, o ex-presidente criticou a interpretação dada por opositores às investigações envolvendo o uso do cartão corporativo. Segundo ele, práticas administrativas comuns em grandes instituições passaram a ser tratadas como narrativas criminais.
“O clube se tornou ingovernável. E, em vez de debater regras, responsabilidades e mecanismos de controle, preferiram criminalizar práticas próprias da vida de uma empresa que fatura R$ 1 bilhão”, declarou.
Duilio também fez críticas ao atual cenário político do Corinthians, que definiu como uma “guerra nuclear” envolvendo disputas políticas, jurídicas, midiáticas e institucionais. Na avaliação do ex-presidente, o modelo associativo do clube já não tem mais condições de administrar uma instituição do tamanho do Corinthians.
O ex-dirigente também levantou questionamentos sobre a possibilidade de transformação do Corinthians em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e afirmou que o debate sobre governança vem sendo substituído por disputas políticas e interpretações “casuísticas” do estatuto.
Na parte final da carta, Duilio citou três pontos que considera centrais para o futuro do clube: os impactos da reforma tributária sobre clubes associativos, o aumento da dívida do Corinthians nos últimos anos e as possíveis punições previstas pelas regras de fair play financeiro implementadas pela CBF.
O ex-presidente afirmou ainda que deixou o comando do Corinthians “pela porta da frente”, com as contas aprovadas e três superávits consecutivos durante sua gestão. Duilio também reiterou que pretende se defender judicialmente das acusações.
“Não me arrependo de nada. E me defenderei na Justiça. O resto, eu deixo para o tempo”, escreveu.
Ao final do comunicado, o ex-dirigente oficializou sua saída definitiva do quadro associativo do Parque São Jorge.
“Renuncio ao meu título de sócio remido, entrego meu lugar como conselheiro vitalício e membro do CORI e me retiro, de forma definitiva, do quadro de sócios do Parque São Jorge, para que o Corinthians possa, enfim, assim espero, cuidar do presente e do futuro”, concluiu.
Confira, na íntegra, o texto publicado pelo ex-presidente:
“Muitos vão comemorar este que considero meu último gesto como sócio do Corinthians.
Em breve, porém, as pessoas racionais perceberão que não há nada a festejar.
Minha renúncia ao título de sócio remido e ao meu espaço como conselheiro vitalício poderá soar como sonho realizado para muitos. Para alguns, talvez atécomo música.
Não foram poucos os que apontaram que minha expulsão, assim como a de outros, seria a salvação do Corinthians.
Amanhã, no entanto, o sol nascerá, e todos terão de se fazer uma pergunta: quem será o próximo que deveremos expulsar? Ou vocês acham que acabou?
O Corinthians foi o clube em que me criei. Fui presenteado com o título de sócio remido pelo meu avô, Orlando Monteiro Alves, ainda na maternidade, no dia do meu nascimento e respirei os ares da Democracia Corinthiana graças ao meu pai, Adilson Monteiro Alves.
Ganhei Paulistas, Brasileiro, Libertadores, Mundial e Recopa, como diretor e fui o presidente que me comprometi a ser. Dediquei muitos anos à vida política do clube, mas jamais imaginei que o custo pessoal, na saúde mental e na física seriam tão caros, a mim e a minha família. É hora, porém, de buscar alguma paz. A guerra política do Corinthians deixou muita gente cega.
O clube se tornou ingovernável. E, em vez de debater regras, responsabilidades e mecanismos de controle, preferiram criminalizar práticas próprias da vida de uma empresa que fatura R$ 1 bilhão, como renegociação de dívidas e o uso de cartão corporativo, no meu caso, com o valor total utilizado nos 3 anos de gestão com média inferior a R$ 35,00 por dia e com uso estritamente institucional, ou seja, transformaram atos administrativos ordinários em narrativas criminais, sem o devido contexto técnico e contábil.
A verdade é que o Corinthians entrou na era da guerra nuclear. Em vez de unir o clube, algo que tentei fazer, não apenas com palavras, mas de forma efetiva, nomeando inclusive opositores como diretores -, o que se vê hoje é um campo minado político, jurídico, midiático e institucional, do qual não pretendo mais fazer parte.
Por tudo isso, o modelo associativo do Corinthians já não tem mais condições de conduzir um gigante de 35 milhões de torcedores. Multiplicam-se leituras viciadas e casuísticas de um estatuto velho, que fazem de tudo para não deixar que seja modernizado. A ordem agora é expulsar todo e qualquer opositor antes da próxima eleição.
A pergunta que fica, para quem presta atenção, já não é apenas se o Fiel Torcedor terá ou não direito a voto. A pergunta é mais dura: o Corinthians será uma SAF com um dono sem voto ou será um clube controlado por interventores jurídicos, também sem voto?
Com minha saída, talvez muita gente finalmente abra os olhos para os três grandes problemas realmente preocupantes do presente, que tantos fingem não enxergar:
1. A reforma tributária tornará a vida dos clubes associativos mais cara do que a das SAFS.
2. A dívida que estava controlada em 2023, com três superávits sucessivos nos anos da minha gestão, foi catapultada em mais R$ 1 bilhão nos anos Augusto/Osmar, com aprovação de gente que agora deseja se candidatar.
3. E a agência de fair play financeiro implementada pela CBF prevê penas como transfer ban e até rebaixamento para clubes que contratam sem pagar ainda mais para aqueles que se comportam como se não precisassem pagar.
Minha retirada do quadro associativo não resolve nada disso. Mas ao menos comprova que não tenho vaidade, estou desapegado e disposto a ver o Corinthians discutir, de fato, o seu futuro.
Em 2023, eu saí da presidência do Corinthians pela porta da frente, com todas as contas aprovadas, inclusive no último ano, com o balanço fechado e apresentado por opositores ferrenhos.
Fizeram da minha vida um inferno, e eu caminho por ele, com a certeza de que tudo vai ser esclarecido.
Hoje, tenho dúvidas se os próximos presidentes conseguirão cumprir três anos de mandato. Muito menos com três superávits ano a ano, recorde de faturamento e controle responsável da dívida, como prometi e fiz.
Não me arrependo de nada. E me defenderei na Justiça.
O resto, eu deixo para o tempo.
Portanto, renuncio ao meu título de sócio remido, entrego meu lugar como conselheiro vitalício e membro do CORI e me retiro, de forma definitiva, do quadro de sócios do Parque São Jorge, para que o Corinthians possa, enfim, assim espero, cuidar do presente e do futuro.
Vai Corinthians. Sempre.
Duilio Monteiro Alves, 28 de maio de 2026.