Pareceres do CORI e do Conselho Fiscal detalham ressalvas nas contas de 2025 do Corinthians
- Por Larissa Beppler | Redação da Central do Timão
O Conselho de Orientação (CORI) do Corinthians recomendou, por maioria, a aprovação com ressalvas das contas referentes ao exercício financeiro de 2025, que registrou déficit de R$ 143,441 milhões, conforme parecer encaminhado ao Conselho Deliberativo nesta sexta-feira (24).
A análise, fundamentada nas demonstrações financeiras apresentadas pela diretoria, no relatório dos auditores independentes e em documentos complementares do departamento financeiro, identificou inconsistências contábeis e limitações de informação que embasaram as ressalvas impostas pelo órgão. A Central do Timão teve acesso ao parecer e detalha, a seguir, os principais pontos destacados.
O documento indica que as demonstrações financeiras abrangem o balanço patrimonial encerrado em 31 de dezembro de 2025, além das demonstrações de resultado, das mutações do patrimônio líquido e dos fluxos de caixa. O CORI acompanhou o posicionamento da auditoria independente e identificou fragilidades que comprometem a plena confiabilidade das informações apresentadas.
Entre as principais ressalvas, a primeira diz respeito à chamada operação estruturada da Neo Química Arena. Segundo o parecer, há insuficiência de informações para adequada avaliação e divulgação dessa operação nas demonstrações financeiras, o que impede uma análise mais precisa de seus impactos patrimoniais e financeiros.
Outra ressalva envolve o parcelamento firmado junto à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). O CORI aponta que não houve adoção do princípio contábil da competência no reconhecimento dos efeitos da transação individual, o que pode distorcer a correta alocação temporal das obrigações e seus reflexos nos resultados do exercício.
Diante de divergências, o órgão recomenda que, caso o clube opte por reconhecer integralmente os efeitos em 2025, seja apresentada nota explicativa detalhada, com a indicação dos impactos dessa decisão tanto no exercício corrente quanto em 2026, como forma de garantir transparência e evitar questionamentos de órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol.
O terceiro ponto de ressalva refere-se à ausência de controles internos e de mensuração contábil adequados em diversas rubricas relevantes, incluindo caixa, fornecedores a pagar, exploração de direitos de imagem e adiantamentos diversos. De acordo com o parecer, a deficiência nesses controles compromete a rastreabilidade das informações e aumenta o risco de inconsistências nos registros financeiros do clube.
Por fim, o CORI apontou irregularidades no registro de ajustes de exercícios anteriores diretamente no patrimônio líquido, sem a devida reapresentação das demonstrações financeiras comparativas. Segundo o colegiado, a prática contraria normas contábeis, prejudica a análise histórica dos números e compromete a avaliação da evolução financeira do clube.
Além das ressalvas técnicas, o parecer faz observações críticas à atual gestão. O Conselho de Orientação registra atraso no envio de informações financeiras, em descumprimento a acordos firmados anteriormente, e alerta para o aumento significativo das despesas, especialmente com pessoal e custos administrativos, que superaram o orçamento em mais de R$ 120 milhões, apesar do crescimento das receitas no período.
O órgão também demonstra preocupação com a falta de transparência da gestão e pondera que não teve acesso a balancetes de 2026, cuja divulgação havia sido prevista, e que a ausência desses dados impede o acompanhamento adequado da execução orçamentária e da efetividade das medidas anunciadas para redução de despesas, sobretudo da folha salarial.
O CORI ressalta ainda que a aprovação com ressalvas não implica quitação ou exoneração de responsabilidade dos administradores por eventuais atos irregulares ou temerários praticados durante a gestão. A recomendação, portanto, limita-se ao aspecto contábil das demonstrações financeiras, sem afastar possíveis apurações futuras.
Diante desse conjunto de apontamentos, o Conselho de Orientação concluiu pela aprovação das contas de 2025 com ressalvas, condicionando a validação das demonstrações à necessidade de maior transparência, aprimoramento dos controles internos e correção das inconsistências identificadas.
Conselho Fiscal também aprova com ressalvas
Em linha com o posicionamento do CORI, o Conselho Fiscal também recomendou a aprovação com ressalvas do balanço de 2025, conforme ata da reunião extraordinária, obtida pela reportagem. O órgão ressaltou, de forma geral, limitações importantes no acesso tempestivo às informações e destacou a demora no envio das demonstrações financeiras e do relatório de auditoria, o que reduziu o prazo de análise a apenas dois dias úteis.
Entre os principais pontos levantados, o Conselho Fiscal reiterou problemas já apontados em exercícios anteriores, como a ausência de divulgação mensal das demonstrações financeiras, falhas na revisão orçamentária obrigatória e deficiências em processos administrativos e de controle interno. Também foram mencionadas inconsistências na organização de despesas, fragilidades em sistemas de controle e a necessidade de reestruturação administrativa abrangente.
O órgão também acompanhou a ressalva da auditoria quanto ao reconhecimento contábil da transação tributária com a PGFN, apontando divergência técnica sobre o momento adequado para o registro de seus efeitos no balanço.
A renegociação da dívida com a União, reduzida de R$ 1,2 bilhão para R$ 679 milhões após desconto de 46,6%, contribuiu para uma diminuição de R$ 217,428 milhões na dívida bruta total do clube, que encerrou dezembro em R$ 2,723 bilhões – abaixo dos R$ 2,8 bilhões registrados no mês anterior. O relatório da auditoria ressalta que a formalização do acordo ocorreu apenas em 2026, o que fundamenta o apontamento sobre a adoção do regime de competência.
Apesar das ressalvas, o Conselho Fiscal ponderou que o exercício de 2025 foi impactado por instabilidade política e administrativa, com mudanças na gestão ao longo do ano, e reconheceu iniciativas voltadas à reestruturação financeira, como a negociação de passivos e ajustes contábeis. À luz desse contexto, manifestou-se, por unanimidade, pela aprovação com ressalvas das contas do período, sem afastar a possibilidade de responsabilização por eventuais atos da administração.
O documento é assinado por Paulo Pimentel, Claudio Senise e Haroldo Dantas, este último com afastamento cautelar da presidência do Conselho Fiscal recomendado pela Comissão de Ética e Disciplina do clube, em razão de conflito de interesses com a gestão Osmar Stabile. Durante a reunião, Haroldo participou dos debates iniciais, solicitou a palavra para comunicar sua abstenção e se retirou antes da deliberação final. Ainda assim, posteriormente, assinou a ata oficial do encontro.
Na próxima segunda-feira (27), o Conselho Deliberativo do Corinthians se reúne no Parque São Jorge para deliberar sobre a aprovação das contas relativas ao exercício de 2025. Conforme a legislação vigente, o clube tem até o último dia de abril para a publicação oficial de seu balanço financeiro.
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