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Corinthians declara déficit de R$ 60,2 milhões e dívida recorde no primeiro semestre; clube explica números

12/09/2025 Por admin
  • Por Daniel Keppler / Redação da Central do Timão

Na manhã desta quinta-feira, 11, o Corinthians detalhou sua situação financeira ao divulgar no site oficial quatro balancetes mensais referentes a 2025, considerando os meses de março a junho. Os números revelam um descontrole das despesas do clube no primeiro semestre, com um déficit acumulado em junho de R$ 60,2 milhões – muito abaixo do superávit de R$ 2,3 milhões previsto para o período.

Com os documentos em mãos, a Central do Timão realizou uma análise detalhada dos registros declarados pelo Alvinegro, avaliando também a evolução mensal de receitas e despesas. Esse levantamento suscitou alguns questionamentos, que foram encaminhados ao clube e respondidos, conforme demonstrado ao final da matéria. Confira a seguir a análise completa das finanças do Corinthians no primeiro semestre do ano:

Receitas sob controle

As receitas se comportaram conforme o previsto no orçamento, aprovado em dezembro de 2024 pelo Conselho Deliberativo (CD), chegando a R$ 490,4 milhões nos seis primeiros meses do ano, apenas R$ 7 milhões abaixo do projetado. O futebol foi responsável por R$ 449,9 milhões deste total, ao passo que o clube social e esportes amadores geraram R$ 40,4 milhões. Já em relação à receita operacional líquida, ou seja, descontando impostos, o total atingido pelo Alvinegro foi de R$ 468,7 milhões.

O destaque maior para as receitas fica por conta do valor obtido com vendas de atletas, que chegou a R$ 88,6 milhões no período, representando 19% da receita operacional líquida. Já em relação às receitas recorrentes, os direitos de TV responderam pela maior fatia do total (R$ 174,4 milhões), seguido dos patrocínios (R$ 96,2 milhões) e da bilheteria (R$ 63,6 milhões). No clube social, a maior receita foi obtida com as contribuições (R$ 17,6 milhões).

Despesas não ajudaram

Por outro lado, as despesas ultrapassaram em R$ 88,5 milhões o previsto no orçamento, atingindo R$ 439,9 milhões apenas com gastos operacionais (incluindo despesas com transferências), sendo R$ 378,7 milhões do futebol e R$ 61,1 milhões do clube social e esportes amadores. Considerados também os gastos não-operacionais, que inclui juros de empréstimos e refinanciamentos (por exemplo) e atingiu R$ 89 milhões, chega-se a R$ 529 milhões em despesas, culminando nos R$ 60,2 milhões de déficit.

A maior despesa registrada foi com pessoal, batendo os R$ 298,6 milhões. O número surpreende, pois é 36% superior ao previsto no orçamento, em um contexto onde o elenco profissional contou com apenas uma contratação no primeiro semestre – o lateral Angileri, em fevereiro. Em seguida, aparecem as despesas gerais e administrativas (R$ 54,6 milhões), serviços de terceiros (R$ 37,1 milhões) e despesas com jogos (R$ 29,4 milhões).

Endividamento e Arena

Em outro trecho do balancete de junho, o Corinthians atualizou os números de endividamento bruto e líquido: R$ 2,634 bilhões e R$ 1,955 bilhões respectivamente. A dívida bruta registrou alta de 2,7% em relação a dezembro de 2024, enquanto a líquida subiu 4,6% no total. Embora sejam índices recordes, os valores representam um freio na forte alta do endividamento registrado durante o exercício de 2024.

Praticamente todo o aumento registrado diz respeito ao clube, cuja dívida bruta e líquida representa, respectivamente, R$ 1,962 bilhão e R$ 1,28 bilhão. No caso da Neo Química Arena, o valor é o mesmo em ambos os casos: R$ 675,2 milhões. O número chamou atenção, pois representa uma alta de R$ 7,2 milhões (ou 1,1%) em relação aos R$ 668 milhões declarados em dezembro de 2024.

Desempenho mês a mês

Além da leitura do balancete de junho, onde os dados do primeiro semestre estavam consolidados, a Central do Timão também analisou a evolução das receitas e despesas individualizadas mês a mês por meio da comparação dos balancetes mensais desde janeiro. A análise mostrou um cenário de instabilidade financeira, com o Corinthians alternando resultados mensais positivos e negativos durante o período.

Em janeiro, por exemplo, o Timão registrou déficit de R$ 6,2 milhões. No mês seguinte, uma injeção de mais de R$ 50 milhões em direitos de TV permitiu ao clube reverter o cenário, saltando para um superávit de R$ 12,1 milhões – resultado comemorado à época pela gestão Augusto Melo, conforme noticiou a Central do Timão nesta matéria.

Em março, as despesas cresceram além da conta, fazendo o clube fechar o primeiro trimestre no vermelho com R$ 16,4 milhões de déficit. Já em abril, a tendência foi novamente revertida, graças a R$ 58 milhões recebidos com direitos federativos, permitindo ao Alvinegro registrar seu melhor saldo acumulado, um superávit de R$ 14,9 milhões. No entanto, maio chegou e uma alta das despesas em ritmo mais acelerado do que nas receitas levou o clube a novo déficit acumulado, de R$ 12,5 milhões.

A grande surpresa, no entanto, aconteceu em junho, quando os dados individualizados acarretaram uma grande piora no quadro financeiro do Corinthians. Tanto as receitas quanto as despesas registraram as menores variações mensais do semestre: 10% e 16%, respectivamente. No entanto, o resultado não-operacional subiu 46%, puxado fortemente pela alta nos gastos com juros e encargos de refinanciamento, fazendo o déficit acumulado saltar para os R$ 60,2 milhões já citados anteriormente.

Mudança de formato

A análise mês a mês também gerou algumas dúvidas durante a produção da matéria, provocadas especialmente por uma peculiaridade sobre a formatação dos balancetes, que seguia um padrão único entre janeiro e maio para, em junho, mudar totalmente. Entretanto, a alteração não foi apenas estética, incluindo também mudanças de entendimento na reclassificação de algumas despesas do Corinthians.

Isso provocou inconsistências que inviabilizam a comparação linha a linha das despesas do clube ao longo de todo o semestre. As despesas com o futebol (jogos e viagens), por exemplo, estavam acumuladas em R$ 54,2 milhões em maio, mas recuaram para R$ 29,4 milhões em junho – movimento tecnicamente impossível, já que se trata de um valor acumulado, que só pode aumentar com o passar dos meses

O mesmo ocorreu com as despesas de depreciação e amortização, cujo acumulado caiu de R$ 42,3 milhões para apenas R$ 5,1 milhões entre maio e junho. Por outro lado, duas linhas registraram aumentos muito acima da média: as despesas gerais e administrativas, que triplicaram (de R$ 18,4 milhões para R$ 54,6 milhões), e as despesas com pessoal, que subiram de R$ 217,5 milhões para R$ 298,6 milhões.

Explicações do Corinthians

A Central do Timão procurou o clube para questionar: o que motivou a mudança de formato do balancete em junho, que resultou nas reclassificações de despesas; qual a explicação para o salto no déficit acumulado de maio para junho; por que a dívida do Corinthians com a Caixa Econômica, referente à Neo Química Arena, aumentou no período, apesar das amortizações promovidas pela campanha Doe Arena Corinthians; e se o clube pretende realizar a revisão orçamentária – obrigatória pelo estatuto, mas não cumprida pelo ex-presidente Augusto Melo em 2024.

Todas as perguntas foram respondidas. Em relação à mudança no formato do balancete em junho, o Corinthians explicou que a alteração teve como motivação a necessidade de apresentar ‘informações gerenciais” para a análise do fechamento trimestral, como o comparativo entre valores orçados e realizados e gráficos do endividamento.

Além disso, o clube detalhou quais reclassificações foram feitas: despesas de amortização de direitos econômicos passaram a ser incluídas em despesas de pessoal; despesas de logística foram reclassificadas como despesas administrativas (antes demonstradas como ‘Futebol’ no balancete contábil); e as despesas de jogos, apresentadas como ‘Futebol’ em maio, passaram a constar em rubrica específica no mês seguinte.

O Corinthians ressaltou que tais reclassificações não afetam o resultado final do exercício. No entanto, é importante pontuar que elas influenciam a análise da evolução mensal das despesas individualizadas, pois não há mais uma base de comparação. Dessa forma, torna-se impossível determinar, por exemplo, quanto dos R$ 298,6 milhões registrados como gastos com pessoal representa, de fato, uma alta em relação aos R$ 217,5 milhões de maio, e quanto desse valor se refere, na realidade, a outras rubricas reclassificadas.

Quanto à variação do déficit de maio para junho, o clube apresentou um detalhamento dos fatores que provocaram o salto negativo. Segundo o Alvinegro, R$ 5 milhões correspondem à diferença entre receitas e despesas correntes necessárias para manter o clube em atividade. Outros R$ 5 milhões referem-se ao reconhecimento, pela gestão, de “outras despesas não contabilizadas em períodos anteriores”.

R$ 8 milhões foram destinados à quitação de acordos e rescisões ocorridas no período, incluindo o reconhecimento de verbas rescisórias e de outros itens, como luvas de atletas não pagas. Outros R$ 18 milhões referem-se ao reconhecimento, pelo clube, de encargos sobre dívidas não registradas anteriormente. A resposta do Corinthians não especificou de qual gestão anterior se originam essas despesas e encargos não registrados e reconhecidos até então.

Os R$ 12 milhões restantes referem-se, segundo o clube, a uma receita de bilheteria não realizada em junho, devido à paralisação dos jogos em função do Mundial de Clubes da FIFA. A justificativa chamou atenção, já que a aprovação do orçamento alvinegro ocorreu um mês após a CBF divulgar o calendário de 2025, que já previa a pausa em junho. Além disso, a bilheteria acumulada no semestre ficou apenas R$ 2,3 milhões abaixo do valor orçado. Diante disso, a Central do Timão replicou ao clube, apresentando essas ponderações, e aguarda retorno, que será detalhado nesta matéria por meio de uma atualização.

O Corinthians também explicou que a dívida da Neo Química Arena registrou um aumento de R$ 7,2 milhões no semestre, já que as amortizações do saldo devedor ocorrem trimestralmente, por meio dos quatro pagamentos anuais realizados pelo clube à Caixa, conforme prevê o atual acordo com o banco. Segundo o Timão, os demonstrativos financeiros de julho já refletem esses pagamentos, situando a dívida do estádio em cerca de R$ 645 milhões.

Por fim, o clube informou que a revisão orçamentária está “sob análise dos órgãos fiscalizadores” e será publicada nos canais oficiais assim que a avaliação for concluída. A Central do Timão apurou que o órgão mencionado é o Conselho de Orientação (CORI), que vem examinando os números das finanças do Corinthians nas últimas semanas. Segundo fontes ouvidas, a revisão deve ser apresentada ao Conselho Deliberativo na próxima reunião do órgão, em outubro.

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