Corinthians E-Sports em crise: salários atrasados, exclusão de torneio e disputas legais
- Por Henrique Pereira / Redação da Central do Timão
O Corinthians E-Sports vive uma grave crise, com salários atrasados em diversas modalidades, processos judiciais e denúncias que já resultaram até em exclusão de campeonato. A CDS, empresa que administra o departamento de jogos eletrônicos do clube desde 2022, afirma que pretende quitar todos os débitos até o fim de agosto.
As denúncias sobre problemas salariais e estruturais, que afetam atletas e funcionários, ganharam destaque pelo perfil “Torcida SCCP” no X/Twitter, especializado na cobertura do E-Sports alvinegro. Posteriormente, a ESPN também realizou uma apuração sobre o caso.

O ponto mais crítico ocorreu em 23 de julho, quando a equipe de Free Fire foi retirada do Free Fire World Series Brasil (FFWSBR), maior torneio nacional da modalidade. A Garena, organizadora do evento, alegou “não cumprimento de obrigações” para justificar a desclassificação, mas não comentou o caso à ESPN. Com o corte, todos os jogadores rescindiram seus contratos e o futuro do time permanece incerto.
Diante das críticas, o CEO da CDS, Milson Januário, reagiu nas redes sociais: “Você pode falar que sou incompetente, é questão de juízo de valores. Agora, fazer afirmação do tipo que é ‘vagabundo’, ‘aproveitador’, ‘assediador’, tudo isso é de uma baixeza… A quem interessa a destruição do projeto? Seria àquelas organizações que estão assediando nossos jogadores? O jogador vai lá, é campeão e tem alguém oferecendo um contrato para ele? Larga o Corinthians, vamos bater no Milson, o bandido.”
Salários atrasados e dificuldades estruturais
Os atrasos começaram em abril, referentes aos salários de março, afetando modalidades como Free Fire, League of Legends (LoL), eFootball, Honor of Kings (HoK), PUBG, VALORANT, Stand Off e Mobile Legends. Em alguns casos, a dívida salarial já chega a três meses.
Ex-funcionários relataram que, além dos salários, havia atrasos em auxílios de moradia e alimentação e promessas não cumpridas, como a de um plano de saúde. Um atleta chegou a abrir uma arrecadação online para evitar despejo.
O investimento em viagens e competições também é alvo de críticas. Em determinada ocasião, a ajuda de custo foi de apenas R$ 60 por pessoa por dia. Em outra, uma equipe precisou dividir R$ 300 para mais de dez dias de treinamento. Em alguns torneios, a CDS alegou que a organizadora subsidiava parte dos custos e defendeu: “Ninguém teve que pôr dinheiro para custear nada.”
No caso do VALORANT, salários estão atrasados há quatro meses e prêmios ainda não foram pagos. Os uniformes só chegaram na metade do campeonato, fato que a CDS atribuiu a “questão logística”.
Nem todas as equipes relatam o mesmo tratamento. O time de HoK, por exemplo, mesmo com três meses de atraso, afirmou ter sido tratado com respeito e ter conseguido rescisão sem obstáculos.
Histórico da gestão e disputas judiciais
O Corinthians entrou no cenário de E-Sports em 2017, firmando parcerias e, em 2019, conquistou o título mundial de Free Fire. Em 2021, criou o Departamento de E-Sports e, em 2022, a CDS assumiu a operação sob comando de Tate Costa.
“No projeto que apresentei, eu não contava com equipe de Free Fire [então comandada pela Nomad], mas acabei precisando absorver a equipe e terminar a temporada sem modificar os jogadores e staff do time”, afirmou em entrevista à ESPN.
Ela relatou que as dificuldades financeiras se agravaram: “Acrescentou um negócio milionário na minha conta, eu tinha quitado as dívidas da empresa anterior… Começou ali um lugar que não era tão saudável, porque a conta não fechava nunca.”
Entre os casos mais emblemáticos, está a disputa judicial com o jogador Siandro “Tatu” Cammassola, que ganhou indenização por danos morais, incluindo o envio de marmitas estragadas.
A chegada de Milson Januário
Corinthiano declarado, Milson conheceu o projeto em 2024 e, após investir milhões, assumiu o controle da CDS em agosto daquele ano. Ele afirma ter aportado mais de R$ 7 milhões para expandir as modalidades.
Tate Costa, porém, disse que houve demora para que Milson assumisse de fato a gestão financeira: “Eu implorava para ele seguir em frente e tirar do meu nome, várias e várias vezes. Sempre enrolava, porque tinha um valor alto para cair na conta.”
Milson Januário, por sua vez, rebateu alegando que o atraso ocorreu por “questões fiscais” e alegou que Tate sacou de forma indevida cerca de R$ 300 mil.
“Considerando hoje que a nossa dívida é da ordem de R$ 300 mil, esse dinheiro que foi sacado de forma criminosa prejudicou bastante a saúde da organização. Essas movimentações irregulares levaram a custos que couberam a mim, pois precisei realizar os repasses aos atletas”, alegou.
Tate negou que tenha agido de forma criminosa: “Eu era uma parceira dele, virei criminosa na hora que eu precisei ser bode expiatório.”
Rudolf Rocha, advogado de Tate Costa, que a acompanhou durante contato com a ESPN, afirmou: “Milson tinha ciência de todas as movimentações que a Tate fez no período em que ele não transferia a empresa para o nome dele. Tanto é que ele tinha acesso a todas as contas. Não tem como falar que houve um crime de uma coisa que ele mesmo estava ciente.”
Impacto no Corinthians e futuro incerto
O contrato entre o Corinthians e a CDS funciona no modelo de licenciamento de marca. Nesse formato, atletas, dirigentes da empresa e a Justiça concordam que o clube não tem responsabilidade nem culpa pelos atrasos salariais. Ainda assim, tanto Tate Costa quanto Milson Januário apontam falhas no modelo atual da parceria.
A antiga proprietária, representada por seu advogado, afirmou não ter críticas ao clube, mas fez uma ressalva: “quando houver uma troca de gestão, a instituição deve estar mais próxima para fiscalizar adequadamente e evitar problemas como os atuais”.
Milson foi além e fez um desabafo pessoal. Segundo ele, embora o clube não tenha obrigação contratual, “se eu fosse o Corinthians e tivesse um indivíduo que coloca R$ 7 milhões do patrimônio em um projeto que dá relevância, que põe o clube no cenário, daria um tratamento diferenciado. Até hoje, não recebemos nenhum apoio do Corinthians”.
O presidente da CDS também lamentou a relação com a instituição: “Até janeiro, não estávamos vinculados a nenhum setor, não tinha nenhum interlocutor”. A definição de um representante oficial ocorreu apenas em 28 de janeiro de 2025, ficando sob responsabilidade do departamento de Esportes Terrestres, que também cuida de modalidades como basquete, futsal, vôlei e atletismo.
“A gente não tinha como começar a discutir uma base contratual porque não tinha ninguém com quem falar. Éramos uma voz no vácuo. Isso é uma questão estrutural dentro da organização”, continuou.
Milson se refere às negociações para rever o contrato de licenciamento. A CDS paga ao Corinthians pelo uso da marca, algo que, segundo ele, contribui para sufocar o fluxo de caixa. Além disso, o contrato vigente até junho impedia a busca por patrocínios.
Foram necessários nove meses de tratativas para chegar a “bases contratuais razoáveis”, mas, nesse período, a imagem da empresa já estava desgastada, dificultando acordos comerciais. As partes ainda negociam uma conciliação sobre os valores a serem repassados.
Outro fator que dificultou a captação de patrocínios, segundo Milson Januário, foram “as indefinições políticas que têm no Corinthians, porque há uma uma confusão muito grande entre o que é Corinthians SCCP e o que é Corinthians E-Sport”.
Essa confusão também se reflete, por exemplo, nas especulações sobre a relação entre Milson e Romeu Tuma Jr., presidente do Conselho Deliberativo do clube. Tuma já atuou como advogado em processos judiciais de Milson, o que gerou questionamentos nas redes sociais sobre possíveis conflitos de interesse. O CEO da CDS, no entanto, afirmou que, embora sejam amigos, a atuação do conselheiro se limitou a causas pessoais e anteriores ao seu envolvimento com o E-Sports.
Apesar da crise, Milson descarta o fechamento do departamento de E-Sports do Corinthians. Para ele, a única possibilidade de interrupção seria o término do contrato, caso não existam mais condições de manter o projeto: “O Corinthians é muito maior do que eu”.
Em nota enviada à ESPN, o clube afirmou que “o departamento jurídico do Sport Club Corinthians Paulista monitora atentamente o noticiário envolvendo a CDS e avalia internamente as medidas cabíveis para que nenhum atleta seja prejudicado neste processo.”
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