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“Se não fosse o futebol, eu não estaria aqui”, diz filho de ex-goleiro do Corinthians

24/06/2020 Por Larissa Beppler

Jurista, filósofo, professor universitário, escritor e presidente da ‘Fundação Luiz Gama’, Sílvio Almeida falou sobre o racismo no futebol

Em participação no programa Troca de Passes, do SporTV, nesta terça (23), o professor universitário, filósofo e jurista Sílvio Almeida, que também é o atual presidente da ‘Fundação Luiz Gama’, citou a trajetória de seu pai, o ex-goleiro Barbosinha, que defendeu o Corinthians na década de 1960.

Foto: Reprodução Facebook

Para o professor, o futebol, por toda força que tem, pode ser uma arma antirracista, ao mesmo tempo em que é atravessado por uma estrutura racista. O jurista destacou que só estudou porque seu pai teve condições, através do futebol, de construir essa possibilidade.

O futebol é uma coisa contraditória e complexa. No futebol, você tem forças e energias fundamentais para a luta antirracista. Se não fosse o futebol, eu não estaria aqui. Eu sou um professor de Direito, mas o futebol permitiu que meu pai construísse algo para me dar possibilidades de estudar. Ao mesmo tempo, o futebol é atravessado pelo que tem de pior na sociedade, como o racismo. Por que meu pai teve o apelido de ‘Barbosinha’ – por causa do goleiro da seleção, o Barbosa*. E eu notei que o apelido do meu pai era por conta de eles serem negros. E meu pai não herdou apenas o apelido, mas o estigma sobre os goleiros negros”, comentou Almeida.

Foto: Reprodução

Barbosinha, ex- goleiro do Corinthians entre 1967 e 1968, era Lourival de Almeida Filho, e morreu em 20 de outubro de 2015, aos 74 anos, vítima de câncer. Ganhou o apelido de Barbosinha por ser seguro e elástico, um estilo muito parecido com o de Barbosa, o goleiro da Seleção que foi execrado do futebol pela derrota do Brasil para o Uruguai, na Copa do Mundo de 1950. Como o ex-goleiro do Corinthians, Barbosa também era negro.

O estigma a que o professor se refere é o que Barbosa carregou consigo até a morte e foi estendido a todos os goleiros negros do país. O goleiro foi acusado de ter falhado no jogo contra o Uruguai e com isso o Brasil ter perdido a taça do Mundo de 1950. A mídia da época passou a repetir que “goleiro negro dava azar”.

Barbosinha sempre havia dito que tinha medo de errar, pois por ser negro seria cobrado de forma veemente como Barbosa foi. A história provou que ele não estava errado. Era um grande goleiro, mas foi acusado por alguns de frangueiro e de vendido por outros, ao levar dois gols de falta em um jogo contra o Palmeiras. Foi vendido sumariamente.

Com a camisa do Timão, Barbosinha atuou em 34 jogos e sofreu 33 gols.

Matéria assinada por Fernanda Pereira Neves na Folha de S. Paulo em 24 de outubro de 2015, quatro dias depois da morte de Barbosinha

Silvio de Almeida, filho de Barbosinha, é filósofo, advogado, mestre em Direito Político e Econômico, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito, e pós-doutor pela Universidade de São Paulo. Além de professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na Fundação Getúlio Vargas e na Universidade São Judas Tadeu, é presidente do Instituto Luiz Gama, uma associação civil sem fins lucrativos, formada por um grupo de juristas, acadêmicos e militantes dos movimentos sociais, que atua na defesa de causas populares, com ênfase nas questões sobre os negros, as minorias e os direitos humanos.

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Por Nágela Gaia / Redação da Central do Timão

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